Fora da Lei
Um documentário de Leonor Areal



Doclisboa 2006 - Menção Especial do Júri para o Prémio de Distribuição

Fora da Lei
Teresa e Lena são duas lésbicas que tentaram casar, desafiando a lei. 
Mas o mediatismo do caso trouxe-lhes ainda mais dificuldades e discriminação. Estas duas mães - e duas filhas - são uma família de facto, mas fora da lei. Para elas, casa, escola e trabalho podem tornar-se grandes problemas. Um filme que mostra o peso da homofobia na sociedade.

Outlaw
Lesbian couple Teresa and Lena made national news in Portugal when they applied to get married. Leonor Areal's camera follows them, one amid scores of reporters' cameras, as they deal with the denial of their petition, and, more significantly, with the negative fallout the publicity generates. Though seeking equal rights, in the process of being recognizable public figures, the two women and their daughters instead find themselves facing even greater discrimination in housing, work, and school.

Doclisboa 2006 - Special mention for the distribution award


DVD   


Recortes de imprensa do dvd-rom 


Com: Helena Paixão e Teresa Pires 
Realização, câmara e montagem: Leonor Areal 
Produção: Videamus, 2006 
Duração: 82’
Formato: HDV

FOTOS

Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=IySFQ7uNgrI

Mostras 

Queer Lisboa, Set. 09 (lançamento do dvd)

Congresso Feminista, Junho 2008, Lisboa

Torino GLBT Film Festival, Abril 2008 (nomeado para o prémio “Nuovi Sguardi”)

Panorama, Lisboa, Fev. 08

Zinegoak, Bilbao, Jan. 08

PIC – Programa de Itinerância Cinematográfica (ICA), Chaves, Dez. 07

PIC – Programa de Itinerância Cinematográfica (ICA), Barcelos, Nov. 07

FNAC, Lisboa, Coimbra, Porto (Doclisboa), Out. 07

Queer Lisboa, Set. 07

2nd Annual Toronto International Portuguese Film Festival, Jun. 07

Newfest, NY, Junho 07

Ciclo Doc TAGV, Coimbra, Maio 07

Cineclube de Estarreja, Março 07

Lisbon Screenings, IFP, Lisboa, Março 07

Alcobaça, extensão Doclisboa 06, Jan. 2007

Malaposta, Odivelas, extensão do Doclisboa, Nov. 2006

LesGaiCineMad, Madrid, Nov. 2006

Ágora - El debate peninsular, Filmoteca de Cáceres, Espanha, Out. 2006

Doclisboa – Out. 2006 - Menção Especial do Júri para o Prémio de Distribuição

 


Nota de Intenções

A ideia de fazer um filme sobre uma família homoparental já vinha de há dois anos. Quando foi anunciado nos jornais que a Teresa e a Lena iam tentar casar, percebi que configuravam um família-tipo muito interessante para a evidência da questão parental, pois cada uma tem a sua filha biológica, mas uma das crianças vive com o casal e a outra foi retirada à mãe por “falta de condições morais”, disfemismo que esconde a discriminação legal por ser lésbica. A lei prática admite efectivamente separar uma criança da sua mãe, contra a lei abstracta que censura a discriminação. Ao impedir o reconhecimento legítimo de casais homossexuais, o estado considera estas famílias como fora da lei, e essa condição remete-as à clandestinidade ou, quando se assumem, condena-as à discriminação no dia-a-dia.

LA


Críticas

 

Filmes hoje - Competição nacional 

A primeira sessão da competição nacional no DocLisboa, hoje às 18h30, abre sob o signo da televisão. Mas para lhe escapar, para o sacudir. Simbolicamente, seja acaso seja premeditação, é uma abertura feliz, porque talvez não possa haver projecto masi urgente para o documentário português do que esta oposição de novas imagens das mesmas coisas às imagens dominadoras e superficiais da televisão. (...) 

Fora da Lei, de Leonor Areal, projecto com outro fôlego, parte do mesmo ponto. Neste caso, em questão está história (altamente mediatizada há meses) das duas raparigas lésbicas que queriam casar-se. o que é interessante no filme é o facto de se partir, ostensivamente, de dentro do turbilhão mediático - planos de repórteres fotográficos e respectivos flashes, imagens e sons de noticiários de televisão - para depois o abandonar e tentar chegar aonde esse turbilhão não chega, porque não pode ou porque não quer.

Para além de um acompanhamento das duas raparigas que não renega um espírito de alguma maneira jornalístico (cobertura de uma reunião na ILGA, por exemplo), a preocupação do filme está em conseguir ultrapassar o estereótipo fixado pelos media, tentar chegar, no casal de raparigas, a outras personagens para além das personagens monodimensionais ("duas lésbicas") mediaticamente estabelecidas.

Fora da Lei tem as virtudes e os limites do documentário de "acompanhamento" (as duas raparigas são o centro, quase exclusivo, do filme), e mais ainda, do documentário de "tema" (dado à partida, mais do que construído no tempo). Em todo o caso, a sua "transparência" formal não deixa de poder ser uma resposta aos estereótipos baços a que reage.

Luís Miguel Oliveira, in Público, 21 de Outubro de 2006


Já "Fora da Lei", de Leonor Areal, tem bem mais fôlego. A realizadora, também autora de um blog caro a este (DocLog), seguiu as mediáticas Lena e Teresa após a sua aparição na vida pública portuguesa, comungando das suas dificuldades e dramas. O casal homosexual que saltou para os media com o pedido de casamento em 2005 assume-se como personagem central do filme de Areal, mas não o canibaliza. Mas vamos por partes. No que diz respeito à história, "Fora da Lei" dá a ver duas realidades, uma surpreendente a outra não. Primeiro, é claríssimo ao fim de alguns minutos que Lena e Teresa em momento algum mediram o impacto que a sua decisão de confrontar o Estado português teria nas suas vidas. Quando Teresa fala com Fernanda Câncio ao telefone, é real o estado de desespero e estupefacção em que se encontra. Nunca as duas mulheres terão pensado que se a vida já era difícil, mais seria a partir dali. Segundo, também rapidamente se percebe que Teresa e Lena são um casal real e convencional. Podem não sê-lo na sua orientação sexual, mas são-no nas formas de estar, na comunhão de preocupações ou mesmo nas irritações mútuas. Percebe-se isso quando Teresa utiliza uma faca para quebrar o gelo do congelador e afirma não ter usado outra por saber que Lena se iria irritar. Aquele tom de voz, aquela forma de pensar e de reagir são comuns a qualquer casal português, são reconhecíveis. E aqui o documentário de Leonor começa a ser feliz no conteúdo. Em termos de atitude, Leonor Areal tem uma limpeza cristalina. A realizadora, que não poucas vezes se debruça sobre as formas e substâncias do cinema, consegue uma posição de cumplicidade mas sem nunca se abraçar à militância. Peça transparente da vida das duas mulheres (excepto quando as interpela directamente), a câmera de Leonor procura sempre o ponto de fuga do triângulo. Não ver as coisas como Lena e Teresa as vêm, mas vê-las como algo externo as vê. Não admite para si uma posição de imparcialidade (senão o próprio documentário perderia a sua razão de ser), mas não puxa a si também as dores de parto alheias. E isto é feito quer pelo lado do conteúdo como da forma. Formalmente, Areal demonstra uma inteligência amadurecida. Todo o filme é pontuado por uma banda sonora emocional mas clara e por imagens genéricas de ambientes urbanos ou paisagens concretas que permitem nunca sair do campo do documentário e entrar pelo da reportagem. Muito é filmado pela janela de um comboio, como se tudo se tratasse de uma viagem, como se a realidade presente do casal não fosse mais do que o antes e o depois de algo. Nunca o filme se dramatiza para além dos factos que contém, ou do olhar que o espectador queira criar para si. Tudo isto faz com que "Fora da Lei" seja uma peça de cinema documental equilibrada, inteligente na construcção e no olhar, e com margem de liberdade deixada a quem vê. O que não é pouco.

in http://animatograf.blogspot.com/2006/10/doclisboa-2006-no-fim-do-mundo.html 


"Fora da Lei" (Hors-la-loi) est le tout dernier documentaire de Leonor Areal. Il était projeté hier, en compétition nationale, au festival Doclisboa.

"Fora da Lei" s'intéresse à un couple de lesbiennes, Lena et Teresa, qui ont essayé de se marier cette année au Portugal, et montre comment la médiatisation dont elles ont fait l'objet a fini par provoquer l'effet contraire de celui désiré : alors que Lena et Teresa cherchaient dans le mariage une égalité des droits avec les hétérosexuels, elles se sont retrouvées confrontées à encore plus de discrimination, parce que connues de tous désormais.

On pourrait diviser le film en quatre parties : l'échec de la tentative de mariage et la médiatisation, qui est le début de tous les problèmes ; la course du déménagement, remplie d'embûches ; la recherche d'un travail ; et enfin la réunion de la famille, toutes les deux étant mères mais une de leurs filles ne vivant pas avec elles.

La médiatisation : le film commence par une série de conférences de presse annonçant le mariage des deux femmes ainsi que son refus légal. Lena et Teresa apparaissent d'entrée comme des victimes involontaires de leur initiative ; les journalistes, filmés dans leurs petits travers par une réalisatrice au regard caustique et satirique, nous font penser à des rapaces prêts à attaquer deux proies innocentes. La caméra de Leonor, mélangée aux dizaines d'autres, se démarque immédiatement en filmant le couple non pas de face comme tout le monde, mais de dos, face au mur formé par les journalistes. Et c'est en effet eux les responsables de ce qui va suivre : Lena et Teresa étant le premier couple homossexuel à prétendre au mariage au Portugal, les médias se sont tous acharnés sur elles - pas toujours avec beaucoup de respect, pour ne pas dire très violemment parfois.

La course du déménagement : après ce ballet de caméras et de microphones, Leonor nous fait entrer chez Lena et Teresa, où l'on comprend à travers une longue scène où les deux protagonistes sont au téléphone les problèmes dont elles commencent à être victimes. Un journal de province a publié un article disant que l'une d'elles était une prostituée et recevait des hommes chez elle (un comble pour une lesbienne). Un exemple parmi d'autres, sans doute, du puits de discrimination dans lequel elles viennent de tomber. D'ailleurs on apprend à ce moment-là qu'elles doivent quitter leur immeuble et leur ville au plus vite, d'abord pour fuir des voisins qui les méprisent (l'un d'eux en est venu semble-t-il à arroser leur fille de la tête au pied) ensuite parce que ça fait quatre mois qu'elles n'ont pas payé leur loyer. Les difficultés s'enchaînent. Malgré ça, on constate que Lena et Teresa gardent un certain humour, qui vient sûrement de l'amour qu'elles se portent. Pour mieux comprendre les motivations de leurs voisins (je suppose, du moins, que c'est pour cette raison), Leonor va frapper à la porte de l'un d'eux ; la caméra, dirigée vers le sol, dissimule son identité ; cependant ce n'est pas l'image de cette fameuse voisine qui compte mais son discours homophobe et ignorant. On comprend vite pourquoi le couple cherche à déménager. Commence alors une série d'allers et retours à Lisbonne pour trouver un appartement mais, là encore, elles se confrontent à des refus systématiques quand elles disent qu'elles sont deux femmes et un enfant. C'est ici qu'entre en scène une association gay qui va faire jouer la solidarité et les aider à trouver "leur refuge", comme dit l'un d'eux.

La recherche d'un travail : une fois l'appartement trouvé et le déménagement accompli, que Leonor suit pas à pas, étape par étape, montrant dans chaque plan le courage qui unit cette famille, il faut encore trouver un emploi pour chacune. Là encore, les refus se succèdent. Dans une scène où elles évoquent ces difficultés, elles vont chercher derrière la caméra un interlocuteur ; Leonor entre en scène par le son, peut-être malgré elle, et ce ne sera pas la seule fois dans le film comme si, après toutes les semaines qu'elles avaient passé ensemble, les deux protagonistes avaient intégré dans leur famille cette autre femme qui les filme.

La réunion de la famille : la fille de Teresa ne vit pas avec elle, c'est donc toujours un évènement lorsque la petite peut se joindre à la famille pour un après-midi. Le film se termine ainsi, par la description d'un pique-nique au parc réunissant les deux mères et leurs deux filles. La plus grande des filles, qui a onze ans, a montré tout au long du film la fierté qu'elle éprouve envers ses deux mères ; malgré son jeune âge, elle apparaît extrêmement mâture et réfléchie. Cette dernière séquence, qui sert de conclusion, laisse entrevoir justement l'espoir de cette famille : l'amour qui les lie et qui resistera à toutes les difficultés. Preuve en est le plan de cet "alpiniste" qui grimpe un rocher de varape lorsque débute le générique de fin.

C'est sans nul doute un film important par son sujet, et qui servira je l'espère à ouvrir certains esprits. Certaines scènes, notamment celle qui se déroule dans une association gay, sont particulièrement fortes en ce qui concerne les droits des homossexuels (Teresa laisse même échapper que son couple n'est pas "normal", conséquence de ce que la société lui répète au quotidien). Mais ce que je dois dire, c'est que la réalisation de Leonor Areal est exemplaire. Que ce soit dans la distance qu'elle place entre elle et ses protagonistes (distance qui viendra petit à petit à se réduire, signe de son intégration dans leur univers), dans la structure narrative du film (problématique, résolution des problèmes, échappatoire), que dans son rythme et dans ses qualités visuelles et sonores. Un film avec une vision propre, dont j'espère qu'il sera vu par beaucoup.

Nuno Pires in http://danslavilleblanche.blogspot.com/2006/10/fora-da-lei.html

 

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